“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polemica”.

“sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids. Fome…”

“Sendo possivelmente o 1o. Ato de homossexualismo da história. A maldição de Noé sobre canaã toca seus descendentes diretos, os africanos”

“O caso do continente africano é sui generis: quase todas as seitas satânicas, de vodu, são oriundas de lá. Essas doenças, como a Aids, são todas provenientes da África”.

Essas são frases proferidas, verbalmente e / ou por escrito pelo deputado federal Marco Feliciano, de Orlândia – SP, e que vieram à tona nos últimos dias.

O nobre deputado afirmou, ainda, que a sua colocação “Não foi racista. É uma questão teológica”.

Essa teoria não é nova. Foi desenvolvida no período da escravização da população africana nas Américas, para aplacar os dramas de consciência dos cristãos, que se utilizaram de um crime de lesa humanidade, a escravidão, para aprisionar, traficar, matar e explorar, acumulando os bens e privilégios econômicos, sociais e culturais que a população branca usufrui no mundo até os dias atuais.

Entre o final do século 15 e o início do século 16, período no qual se estruturava a escravização dos africanos, com autorização expressa do papa Nicolau V, através bula romanus pontifex, teve início também a construção das representações racistas do povo africano. O padre Manoel da Nóbrega, por exemplo, afirmou “Por serdes descendentes de Can e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”.

A escravidão e as maldições são recorrentes e naturalizadas nos textos bíblicos, tanto no velho como no novo testamentos, mas nenhum deles vincula estas questões ao continente africano ou a seu povo.

Analisemos como exemplo o trecho bíblico especificamente utilizado pelos escravocratas de outrora e pelos racistas de hoje, para dissimular sob um suposto “manto religioso” a sua verdadeira intenção de violentar e explorar a população negra, o da “maldição de Noé”:

“Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Can e Jafé; Can é o pai de Canaã. Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra.

Noé, o cultivador, começou a plantar a vinha. Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Can, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costado, cobriram a nudez de seu pai; seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que lhe fizera seu filho mais jovem. E disse:

– Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos.

E disse também:

– Bendito seja Iahweh, o Deus de Sem, e que Canaã seja seu escravo! Que Deus dilate a Jafé. Que ele habite nas tendas de Sem, e que Canaã seja teu escravo! “
(Gênesis, 9)

Em outro trecho, a bíblia fala da descendência de Can e das áreas geográficas ocupadas por eles, nenhuma na África:

“Os filhos de Can: Cuche, Mizraim, Pute e Canaã. Os filhos de Cuche: Seba, Havilá, Sabtá, Raamá e Sabtecá; e os filhos de Raamá são Sebá e Dedã. Cuche também gerou a Ninrode, o qual foi o primeiro a ser poderoso na terra. (…) O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Desta mesma terra saiu ele para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir, Calá,e Résem entre Nínive e Calá (esta é a grande cidade). Mizraim gerou a Ludim, Anamim, Leabim, Naftuim, Patrusim, Casluim (donde saíram os filisteus) e Caftorim. Canaã gerou a Sidom, seu primogênito, e Hete,e ao jebuseu, o amorreu, o girgaseu, o heveu, o arqueu, o sineu,o arvadeu, o zemareu e o hamateu. Depois se espalharam as famílias dos cananeus.Foi o termo dos cananeus desde Sidom, em direção a Gerar, até Gaza; e daí em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa. São esses os filhos de Can segundo as suas famílias, segundo as suas línguas, em suas terras, em suas nações”. (Gênesis 10)

Os racistas sempre se pautam na manipulação da informação e das pessoas, de maneira medíocre e superficial, com o simples propósito do exercício do poder, através da negação do outro, da sua cultura, dos seus direitos. Ao longo da história, sempre procuraram se proteger sob alguma elaboração pseudo-teológico, pseudo-filosófico ou pseudo-científico, mas suas teorias nunca resistem a um olhar mais apurado.
Não existe “maldição bíblica” sobre o Continente Africano e sua descendência espalhada pelo planeta através da escravidão, mas existe sim a “maldição” provocada pela exegese mentirosa de cristãos fundamentalistas em cima dos textos bíblicos, como o deputado Marco Feliciano, e que constitui a base de sustentação do racismo e das suas diversas facetas de violência contra a população negra, ao longo da história do contato do povo africano e sua diáspora com a chamada “civilização cristã”.

Como bem escreveu Jomo Keniatta, um dos grandes líderes das lutas contra o domínio europeu sobre a África:

“Quando os missionários chegaram, os africanos tinham a terra e os missionários tinham a Bíblia. Eles nos ensinaram a rezar de olhos fechados. Quando nós os abrimos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia”

As estruturas de pensamento e poder da sociedade contemporânea, foram construídas tendo como sustentação pseudo-verdades racistas, utilizadas como instrumentos de dominação e exploração. Para justificar a escravidão nos negaram humanidade, cultura, liberdade, capacidade intelectual, valores e sentimentos. Formataram uma possibilidade MONO de ser, de viver e enxergar o mundo, na qual tudo e todos que não trazem em si as marcas da Europa e do cristianismo, não devem ter o direito de existir, a não ser que neguem a si próprios. Na busca da manutenção dos privilégios construídos durante a escravidão, continua-se a alimentar esse pensamento reducionista, que nega aos africanos e à sua descendência qualquer valoração positiva, e ao mesmo tempo os vincula a valores negativos.

O parlamentar imputa ao continente africano o satanismo, quando na verdade os africanos só descobriram a existência desse ser mítico cristão, que disputa o poder sobre os seres humanos com Deus, quando os próprios cristãos invadiram a África. Práticas e seitas satanistas permeiam os registros históricos que os cristãos fizeram sobre si próprios na Europa Medieval, mas não são encontradas na memória histórica dos povos africanos.

Nos acusa também de paganismo. A palavra “pagão” vem do latim “paganus”, que é aquele que mora no “pagus”, no campo, na natureza, e que a respeita. Nesse sentido as comunidades tradicionais africanas praticam o paganismo sim, pois consideram que toda a natureza é viva, é sagrada e deve ser preservada com condição essencial para a existência humana. Na busca de acumulação de capital, através da destruição da natureza mundo afora, passaram a vincular as concepções de mundo que se contrapunham a esta prática, como anti-cristianismo. Tivessem os cristãos respeitado esse princípio de sabedoria extrema quando se espalharam pelo planeta terra como uma mazela, não estaria hoje a própria vida humana sendo inviabilizada.
Mas não se trata de uma atitude individual do deputado. Ele apenas rompeu com uma espécie de “etiqueta” ou “consenso” nacional de negação das práticas e do pensamento racista que permeiam a nossa sociedade. O silêncio “consensual” sobre o racismo no Brasil não é mais possível, pois a organização do povo negro na busca de seus direitos tem avançado a cada dia. Queremos nossa história e nossa cultura nas escolas; queremos garantidos os nossos direitos naturais e constitucionais à vida, à igualdade, ao trabalho, à saúde, à educação formal; queremos o direito de ser, de vivenciar nos tradições; e isso implica em diminuir privilégios, em diminuir a “cota” 99% branca nas estruturas de poder, nas universidades…

Pois é, nobre representante do povo no Congresso Nacional, temos a pele negra como a noite, não por alguma maldição divina, e sim pela concentração de melanina que nos protege do sol, mas que infelizmente não nos protege da violência dos racistas. Por isso, só nos resta recorrer à lei que pune o racismo como crime, uma conquista recente do povo negro, num país que nos discrimina há séculos.

Ribeirão Preto, 31 de março de 2011
CENTRO CULTURAL ORÙNMILA
http://www.orunmila.org.br

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